Homilia

  • Santo André – A coragem e o desafio da mudança


               Hoje, 30 de novembro, a Igreja celebra o apóstolo André,  irmão de Simão Pedro.

             A Sagrada Escritura nos diz que André dedicava sua vida ao trabalhado e participava de um grupo religioso. Sua profissão era  pescador (Mt 4,18) e ao mesmo tempo era discípulo de João Batista (Jo 1,40).

              Encontrando Jesus de Nazaré pelas cercanias de Cafarnaum, à beira do lago de Genezaré, André ouviu seus ensinamentos “cheios de autoridade” e se sensibilizou com as suas propostas. Viu uma nova luz em sua vida. Viu perspectiva de crescimento na mudança.

               E, ao convite de Jesus para segui-lo, aceitou com prontidão. Deixou de ser pescador de peixes para sê-lo de gente. E passou do grupo de João Batista, que pregava um batismo de conversão, para o de Jesus, que pregava uma mudança não só em nós mesmos, mas em toda a realidade pela proximidade da chegada do Reino. 

                O foco da vida de André mudou radicalmente: em vez de cuidar de peixe, cuidar essencialmente de gente; em vez de procurar somente a própria salvação, a salvação das pessoas, povos, da natureza, representada pelo advento do reino de Deus.

               A festa de Santo André nos traz uma reflexão profunda: todo mundo percebe a necessidade de transformações na vida; mas como é difícil uma mudança prá valer, que seja radical, de nós seres humanos e por consequência do mundo todo!

               Vivemos num mundo que clama por mudanças, sobretudo pela ética na política. E parece que essas mudanças nunca acontecem. Governantes, que se colocam como vestais da moralidade e prometem nova atitude em relação ao dinheiro público, agem exatamente como os outros. É a tal mudança de fachada. Veja, nestes dias, o exemplo do presidente da república Temer, gastando tempo e dinheiro na defesa dos interesses do seu ministro Geddel, que procura garantir um apartamento de milhões passando por cima das exigências legais. Exemplos como este vemos aos montes nos jornais, todos os dias.

               O fato é que, como nos mostra Santo André, a verdadeira mudança começa de dentro, do coração e da mente, quando mudamos o rumo de nossas vidas: sair da perspectiva de nossos interesses pessoais e entrarmos radicalmente na rota do interesse dos outros, sobretudo dos mais fracos e desprezados da sociedade.  Não é obra fácil. É obra para toda uma vida. Mas o fundamental é mudarmos de rota. Santo André, encantado com a atitude do jovem de Nazaré, nos dá um belo exemplo de como esta mudança deve ser feita: não deixar para amanhã. “Eles, IMEDIATAMENTE, deixaram as redes e o seguiram”  (Mt 4,20).

    frei Marcos Belei, o.p. (Aragominas – TO)


     

  • HOMILIA PARA O EVANGELHO PROCLAMADO NO 34o DOMINGO DO TEMPO COMUM – WSOLENIDADE DE CRISTO REI DO UNIVERSO (Lc XXIII, 35-43)

     

     

                       Para ser franco, devo afirmar que, com minhas preferências republicanas e  inclinações à esquerda, não tenho nenhuma predileção particular pela realeza e que, em si, o título de rei aplicado a Jesus não é aquele que mais inspira minha fé. Foi somente em 1925 que o bispo de Roma na época, o papa Pio XI, introduziu esta festa no calendário litúrgico. Tinha suas razões: em uma Itália que começava a ser dominada pela força diabólica da extrema-direita, tendo Mussolini à sua frente, convinha lembrar que o único Senhor e Rei é, efetivamente, Jesus de Nazaré. Pio XI foi profético no sentido de que, na década seguinte, outro representante demoníaco da direita se fez proclamar na Alemanha, Führer. Proclamar Jesus como rei do universo, o único e verdadeiro Führer, era, naquele contexto, algo escandalosamente subversivo.

     

                         As passagens mais antigas do Novo Testamento atestam que Jesus já foi desde cedo chamado “Filho de Deus”. Tal título era, na sua origem, usado para designar os reis de Israel e de Judá. Com efeito, esperava-se entre os contemporâneos de Jesus a restauração da linhagem de Davi e o restabelecimento da soberania davídica sobre as doze tribos de Israel. Ser “filho de Deus” implicava, assim, ser “filho de Davi”. A partir disso se compreende o esforço dos evangelistas Mateus e Lucas em forjar uma ascendência davídica para José. No entanto, os primeiros cristãos nunca reivindicaram para Jesus – nem o próprio Jesus para si – a pretensão de uma restauração anacrônica e infantiloide de um distante e praticamente legendário reino de Davi. “Filho de Deus” foi logo interpretado como sendo a melhor fórmula para apresentar a realidade de Jesus: a manifestação de Deus junto à humanidade e o representante da humanidade junto a Deus. Assim, enquanto ressuscitado, o título “Filho de Deus” não quer enviar às origens de Jesus, mas às suas prerrogativas e autoridade. Jesus ressuscitado age como Espírito de Deus e no Espírito de Deus, sendo que por meio dele, o Espírito do Pai se faz presente em nós e tal presença operante e operativa é eterna, para além do tempo. Assim, no Espírito que procede do Pai e para a glória do Pai, Jesus é definitivamente o Senhor. Passagens mais tardias do Novo Testamento testemunham que no século I d.C. já se atribuía a Jesus ressuscitado todas as prerrogativas de Deus. Ora, a realeza e o senhorio são atributos divinos na tradição judaica – assim como também na tradição islâmica em que “o rei” ou “o soberano” (al-malik, الملك) é um dos 99 nomes de Deus. Logo, pode-se aplicar a Jesus fórmulas como “rei das nações” ou “rei do universo”. Uma vez que Jesus ressuscitado se revela aos discípulos como “glorificado por Deus” e “exaltado à direita de Deus”, a consequência de sua realeza é óbvia.

     

                         Ter isso em mente é fundamental na medida em que possibilita aos cristãos – que desde o século I diante dos tribunais romanos proclamavam que Jesus é Senhor – uma liberdade única. Proclamar e viver essa proclamação de fé custa caro e, por vezes, demasiadamente caro, não apenas em tempos de perseguição, mas também e principalmente em tempos de conforto; toda vez que se recusa a adorar o deus do momento – e como tais deuses são numerosos – as consequências podem ser fatais! Então, não é exatamente pelas fórmulas usadas ou pelas imagens que as fórmulas apresentam que se deve pagar com sofrimentos e incompreensões e eventualmente com a vida e a morte, mas é pelo próprio Jesus Cristo, em pessoa, e pelo que ele manifesta: seu Deus que é Deus conosco, Deus feito homem.

     

                               Curiosamente, Jesus proclamou sempre o reino de Deus, mas nunca qualificou Deus como “rei”. O reino de Deus segundo Jesus é, na minha humilde – talvez ousada – leitura, um reinado sem rei. É verdade que Jesus ao ser identificado com a figura apocalíptica de “Filho do homem” traz consigo algumas qualidades privativas da realeza, como, fundamentalmente, o poder e o direito de julgar. Mas Jesus não leva isso a sério. Ele não quer julgar, mas manifestar Deus, Deus que salva, Deus que é salvação. Nesse sentido, o relato evangélico de hoje pode nos ajudar a compreender melhor o reino do qual Jesus se fez arauto e embaixador e do qual o queremos fazer rei. Se ainda hoje insistimos em chamar Jesus de rei, é preciso levar em conta que ele nunca, em sua vida pública, foi louco o suficiente para se proclamar rei do que quer que fosse. A única menção a sua proclamação como rei que encontramos nos evangelhos se refere à sua condenação à cruz e à tortura que precedeu sua morte. De acordo com os evangelistas, a inscrição “Jesus de Nazaré, rei dos judeus” se deve ao peso de consciência de Pilatos que não estava 100% convencido da culpa de Jesus. No caso de Jesus, não havia provas – mas havia convicção. Na minha modesta e despretensiosa interpretação, o ato de Pilatos foi uma piada de mau gosto que o governador romano fez contra Jesus. Da mesma maneira, como objeto de deboche, Jesus é tratado pelos soldados e pelos que sentiam prazer em ver o sofrimento daquele condenado. Se mesmo assim, insistimos ainda em chamar Jesus com o título anacrônico de “rei”, é preciso lembrar que, no relato evangélico de hoje, seu trono é a cruz, seu cetro também é a cruz, sua coroa é de espinhos e seus súditos o debocham o tempo todo. Humano, demasiadamente humano para ser rei... Apenas um ladrão anônimo, crucificado e condenado à morte, um colega de cruz, foi capaz de apreender a essência do próprio Jesus, contemplando naquele absurdo a pessoa de Jesus. O ladrão crucificado que o interpela não vê em Jesus um superior, mas um irmão, um camarada, um companheiro, um igual; por isso não lhe diz: Majestade ou Senhor, ou Mestre ou ainda Sua Santidade, Sua Beatitude, Sua Eminência, sua Excelência, Monsenhor ou Reverendíssimo Pai/Padre... Não! Ele o chama simplesmente de “Jesus”: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu Reino”. Quanta esperança depositada! Eu não me imagino no ápice do meu sofrimento, na humilhação pública e nos últimos instantes de minha vida, ser capaz de encontrar esperança em outro igual a mim, também condenado, também humilhado, também entre a vida e a morte, e encontrar nele sentido para confiar e morrer em paz. É mais difícil ainda prever a imaginação criativa e criadora do sempre ousado e surpreendente Jesus em prometer ao ladrão desconhecido o que estava além de quaisquer expectativas: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. E foi assim que um criminoso condenado se tornou o primeiro cidadão no reino de Jesus.

     

    MATEUS DOMINGUES DA SILVA OP vive no convento dominicano do Cairo, onde é pesquisador em história da filosofia árabe e em islamologia.

  • O CAMINHO POR ONDE ANDA JESUS

     

                    Uma das expressões mais marcantes dos estudiosos da religião nas últimas décadas foi a declaração de que a fé cristã ela é dessacralizante. Trata-se do fato da afirmação de que Deus se fez homem. Em decorrência, nada mais é sagrado. Fica rompido definitivamente e categoricamente o espaço do sagrado e do profano. Por outro lado, é bem verdade, que podemos tomar esta mesma ideia em sentido oposto, tudo se torna sagrado. Não discutiremos a essência dessa tese, que bem seria oportuna no Natal do Senhor. Mas, ela é a linha que subjaz a mesa da Palavra neste XXXIº Domingo do Tempo Comum.

                    A frase marcante do trecho que a Igreja hoje nos apresenta, não é só um desejo de Zaqueu (Lc 19,3). Mas um desejo de todo o cristão. E se tomarmos a intuição de fr. Bruno Cadoré, ao falar à Revista Família Cristã de Portugal, é de todos nós, a humanidade. Todos nós queremos ver Jesus. A humanidade deseja ver Jesus. O detalhe é como encontrarmos Jesus.

                    Entretanto, este Deus escondido vai se revelando aos poucos, como bem nos alenta a leitura do livro da Sabedoria deste domingo (Sab11,22-12,2), livro que faz uma releitura do Gênesis em chave sapiencial.

                    O caminho mais direto, sem embargo, vemos descrito no Evangelho. Para encontrar Jesus é preciso empenhar-se na busca sincera. Jesus não faz discriminação! Percebe e vem ao encontro: “Zaqueu, desce depressa, hoje irei a sua casa”(Lc 19,5). Apesar de chefe, Zaqueu tentou ficar mais alto do que era, artificialmente. E estava ainda à margem, porque numa árvore. Fora do ambiente normal de sua pessoa e das pessoas em geral. Mas Zaqueu teve o esforço de subir e sobretudo de descer da árvore. Jesus não está em cima, está embaixo. O Messias, na verdade, mais que o pantocrator, é simples. Muito mais que nos templos, somos convidados a caminhar para Ele, caminhando com Ele nas situações mais simples e cotidianas.

                    Por isso, hoje queremos ver Jesus. E para vê-lo é preciso enfrentar as contradições do mundo e as nossas. Zaqueu era chefe da sinagoga, porém, pequeno. E teve que ser humilde para aceitar o autoconvite de Jesus para estar com ele. É a atitude de “descer”. Estar sobretudo em sua casa, no espaço de maior intimidade.

                    Jesus se mostra onde não se espera. A experiência de hoje é desmitologizadora e ao mesmo tempo mistificante. Jesus vem ao nosso encontro quando não ligamos para as convenções. Ele vem ao nosso encontro na transparência da vida, no enfrentamento de preconceitos. No desafio de estar com os mais humildes e desprezados. Porque ele se mostrou atento a todos que estavam à margem. Jesus vem ao nosso encontro na mística de nossa vivencia cotidiana.

                    Talvez o lugar de nos encontrarmos com Jesus seja enfrentarmos este momento tão difícil que o Brasil atravessa. De tantos discursos de reformas, sem, no entanto, que a vida dos menores seja a pauta do dia. Buscar lermos a história do Brasil. Um país, que sempre foi muito excludente. E pelo visto continua sendo. Onde muitas pessoas têm pouco conhecimento crítico da história e dos jogos de interesses que nela são disputados. Ajudaria retomar o pensamento de um Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes ou Sergio Buarque de Holanda.

                    A transparência de Deus, o Deus da revelação cristã está no cruzamento deste caminho de transcendência, na mística, de um Deus que toca o caminho de nosso contexto. O Deus que o Evangelho afirma ter visitado o seu povo não frequentando os templos e palácios, mas as estradas empoeiradas. A lógica da mesa da Palavra de hoje, parece que nos aponta que, ver Jesus, se trata de entender o desafio dos empobrecidos e encontrar ali, escondido, o transparente caminho por onde anda Jesus.

    Por frei Helton Barbosa Damiani, OP

    Mestre de Noviços,

    vigário da Paróquia São Domingos,

     em Uberaba

Notícias

  • Muita coisa mudou no cenário político do Brasil desde que o assessor de movimentos sociais Carlos Alberto Libânio, 72, o Frei Betto, lançou "A Mosca Azul". A obra, que mostrava a relação do Partido dos Trabalhadores com o poder, completou dez anos desde que foi lançada, em 2006 --época em que o PT, a despeito do escândalo do mensalão, eclodido em 2005, ainda detinha o governo. Naquele ano, aliás, a maior parte do eleitorado daria a Luiz Inácio Lula da Silva um segundo mandato na Presidência e abriria o caminho para que o petista definisse sua sucessora, Dilma Rousseff, nas duas eleições subsequentes.

     

    Continue lendo:

    http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/11/19/frei-betto-pt-tem-que-descer-do-salto-e-calcar-sandalias-da-humildade.htm

  • "Lebret fue pionero -junto al economista François Perroux, promotor de los polos de desarrollo- de un nuevo enfoque del planeamiento urbano y territorial, y elaboraron la visión fundacional de la Economía Humana buscando "el desarrollo de todo el hombre y de todos los hombres". Este objetivo del desarrollo será propuesto repetidamente por Lebret y asumido expresamente por Pablo VI en la encíclica Populorum Progressio (1967)", escribe Eloy Mealla, licenciado en Filosofía con Posgrado en Cooperación y Desarrollo, en artículo publicado por Religión Digital, 26-10-2016.

    http://www.ihu.unisinos.br/561654-l-j-lebret-pionero-de-otro-desarrollo

  • Depois que a Éditions du Cerf reeditou dois dos seus livros (Eu vos chamo de amigos e Que a vossa alegria seja perfeita), o grande teólogo dominicano concedeu uma entrevista exclusiva ao Le Point. A entrevista é de Jérôme Cordelier e publicada no sítio francês Le Point, 19-04-2014. A tradução é de André Langer.

     

    http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530741-nossa-epoca-sofre-do-mal-da-banalidade-entrevista-com-timothy-radcliffe

  • TOMÁS DE AQUINO E PAULO FREIRE Pioneiros da inteligência, mestres geniais da educação nas viradas da História DE FREI CARLOS JOSAPHAT, OP

    DATA: 27 de Agosto as 18h00

    LOCAL: Pavilhão de Exposições do Anhembi - Santana - SP

Agenda

Newsletters

Cadastre-se em nosso site e receba nossos tablóides

Nome:
E-mail: