Homilia

  • REFLEXÃO HOMILÉTICA PARA  A ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA

     

    Mateus Domingues da Silva OP*

     

                Os vínculos entre pais e filhos são únicos. O vínculo entre uma mãe e seu filho é de uma intensidade indescritível tanto biológica como afetivamente. Com Jesus, muito provavelmente, não foi diferente; há vínculos fortes entre Jesus e seus pais e, provavelmente, havia algum vínculo mais forte ainda e incomparavelmente intenso entre Jesus e sua mãe. Algo fundamentalmente constitutivo na personalidade de Jesus, sem nenhuma dúvida. O que isso importa na história da salvação? Absolutamente nada, a não ser para reafirmar a humanidade de Jesus. Ele, verdadeiramente homem, foi efetivamente filho de pais humanos, nascido realmente de uma mulher humana. O Novo Testamento, no geral, não se interessa pelas origens familiares de Jesus – provavelmente porque os autores as ignoravam por completo. As duas exceções são os evangelhos segundo Mateus e Lucas. No entanto, mesmo os evangelistas Mateus e Lucas não querem dar azo à imaginação, não se interessando por especulações vazias. Tão ignorantes das origens familiares de Jesus que os outros autores do Novo Testamento, estes dois evangelistas não querem reconstituir nem o nascimento nem a infância de Jesus. Eles querem, nos relatos evangélicos da “infância”, falar de outra coisa, a saber: da crucifixão, morte, ressurreição e ascenção de Jesus. Assim, todas as coisas que Mateus e Lucas contam sobre José, Maria e as circunstâncias do nascimento de Jesus não têm valor histórico nenhum e não podem ajudar em nada o historiador na aventura de buscar descobrir dados biográficos de Jesus. Não obstante, em Mateus, a figura simbólica de José nos apresenta o ideal de homem justo e obediente aos desígnios de Deus, sensível aos sinais de Deus e que, assim como outro ilustre José – o filho de Jacó –, muda-se, ainda que temporariamente, para o Egito. Da mesma maneira, Lucas projeta em Maria a figura do fiel que ouve a palavra de Deus e se deixa transformar pela esperança que tal palavra suscita; é o paradigma de discípulo e de Igreja. “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc I, 45).

     

                A partir do pouco que Lucas apresentou sobre Maria, a Igreja católica e as Igrejas ortodoxas inflacionoram a figura de Maria. O Concílio Vaticano II soube equilibrar as coisas e colocar Maria no seu devido lugar. É preciso reler o evangelho segundo Lucas e aprender a desenvolver uma mariologia minimamente coerente com os dados bíblicos e patrísticos e que leve suficientemente a sério tanto a história como a teologia. Dessa maneira, aprendemos que “muito mais felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática” (Lc 11, 29). Trata-se da mesma Maria que, segundo Lucas nos Atos dos Apóstolos, fez parte da Igreja nascente em Jerusalém. A bem-aventurança da mãe de Jesus consiste, segundo Lucas, não propriamente na maternidade de Jesus, mas no fato de ter sido uma discípula exemplar.

     

                No relato evangélico de hoje (Lc I, 39-56), Maria, trazendo consigo Jesus, representa a Igreja jovem e nascente; ela sai em missão e se encontra com a idosa Isabel que, mesmo envelhecida, traz consigo uma criança, João Batista, o qual representa, por sua vez, os profetas do Antigo Testamento. Isabel representa os judeus de todos os tempos, assim como Maria os cristãos de todos os tempos. É emblemático notar que Lucas escolheu duas mulheres para representar a Igreja e Israel – não é exagero chamar Lucas de “o evangelista feminista”. Ademais, o novo e a novidade são acolhidos pelo antigo e pela antiguidade. Estabelece-se um vínculo “de sangue” entre Jesus e João Batista, entre a Igreja e Israel, entre Maria e Isabel, entre cristãos e judeus. Maria, isto é, a Igreja, assimila e assume as alegrias e as esperanças, as dores e as tristezas dos judeus de todos os tempos, expressando isso isso através de seu Magnificat. A primeira leitura do dia de hoje (Ap 11, 19; 12, 1.3-6.10) nos faz lembrar que a Igreja é como uma mãe que dá à luz um filho, a saber: Jesus ressuscitado.

     

                Trazer o Cristo ressuscitado consigo e dar à luz o próprio Cristo Jesus significa que devemos nos configurar a Jesus de Nazaré. Com ele, há uma nova humanidade. Se uma velha humanidade existia, com Jesus tudo é novo e é renovado. A ressurreição de Jesus nos faz irmãos e irmãs na nova humanidade. Com efeito, Jesus de Nazaré é o novo Adão, o primogênito de uma nova humanidade e nosso irmão mais velho, aquele que faz gerar – com sua vida, sua humanidade e sua cruz – uma nova humanidade. Com incrível liberdade interior, Jesus pregou um reino de amor e liberdade, um Deus que é um pai bondoso e clemente, um reino de Deus que consiste no reinado da salvação e da misericórdia, do perdão e da reconciliação; a pregação de Jesus foi rejeitada e, por conta disso, Jesus foi excomungado, condenado, executado, crucificado, morto e sepultado. Este Jesus crucificado, rejeitado pela religião e condenado pela ordem, se manifesta como realmente vivo em Deus e exaltado como Cristo e Senhor; ele se comunica como glorificado e ressuscitado para os discípulos fieis. A vida nova em Jesus nos alimenta na esperança de que nós também temos o mesmo fim de Jesus crucificado: Deus. O Deus de Jesus é nosso destino, nossa alegria;  a pregação de Jesus, sua boa-nova, seu evangelho, é nosso guia, nosso norte; Jesus resssuscitado é nossa liberdade, nossa luz, nossa esperança. Precisamos de esperança e liberdade sempre; no contexto brasileiro atual, em que um golpe de Estado perpetrado pelo establishment está em vias de ser concluído e o sonho de um Brasil com o mínimo de responsabilidades sociais e com os direitos humanos está para ser jogado fora, a esperança e a liberdade são essenciais. Espero – na verdade, eu anseio mais que espero – que o golpe não se conclua; se for concluído, precisaremos de iluminação e de esperança para lutar por liberdade política e justiça social. Da mesma maneira, enquanto discípulos e discípulas do Cristo, tanto a nível local como a nível global, precisamos da convicção confiante de que o Deus de Jesus “pôs tudo debaixo de seus pés” (I Cor 15, 27) para juntos, como Igreja, fazer nascer o filho, isto é, o próprio Jesus ressuscitado. Como nos recorda a segunda leitura (I Cor 15, 20-27), todos já tivemos nossos “inimigos” destruídos – inclusive a morte. Como homens e mulheres novos e novas precisamos, na Igreja, nos renovar e nos reformar, assim como pensa, fala e age o papa Francisco, nos exorta e nos ordena o Concílio Ecumênico Vaticano II e nos impele o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos – o mesmo Espírito que mora em nós e nos impele a chamar alegremente Deus de “pai”, isto é, a nos chamar alegremente de irmãos e irmãs.

     

    *Mateus Domingues da Silva, frade dominicano, é islamólogo, pesquisador em história da física medieval e em história da filosofia árabe e membro do IDEO (Institut Dominicain d’Études Orientales) do Cairo.

     

  • MEMÓRIA DE S. JACINTO DA POLÔNIA

     

                    O evangelho de hoje nos convida a olhar para o Reino de Deus no qual não existem excluídos, todos podem participar da bondade e misericórdia divinas. Deus quer compartilhar a sua bondade e o seu amor para com todos os homens e mulheres, por pura gratuidade. Para Deus não existe uma classe de eleitos, todos são chamados a participar de seu amor. Agora, enquanto uns correspondem a este amor, outros o renegam.

                  Entre os homens e mulheres que corresponderam a este amor, a Ordem dos Pregadores, hoje, lembra de S. Jacinto da Polônia, homem que introduziu os dominicanos na Polônia, alguns até o  chamam de “S. Domingos da Polônia”, pela sua força evangélica que contagiou o norte da Europa.

              S. Jacinto nasceu em uma família nobre, foi educado nas virtudes por seu tio padre, chegando a ser ordenado sacerdote e constituído cônego da Catedral de Cracóvia. Após seu tio ser sagrado bispo, viajou com ele e Ceslaus (seu irmão ou parente próximo) para Roma, onde entrou em contato com o testemunho evangélico de Domingos, de tal modo que ficou encantado e atraído pelo ideal da Ordem dos Pregadores, chegando a receber o hábito, sendo mandado pelo próprio Domingos como um dos primeiros apóstolos na Polônia.

               S. Jacinto desde cedo procurou seguir os passos de Jesus Cristo, sendo sacerdote e depois entrando para a vida religiosa. Mas no cristianismo encontramos muitos exemplos de conversão tardia, ou seja, muitas pessoas conheceram ou aceitaram a mensagem de Jesus com idade avançada, e nem por isso podemos afirmar que são menos amadas por Deus.

               A lógica de Deus é outra, como podemos ver na parábola que a liturgia nos apresenta hoje (Mt 20, 1-16), a justiça de Deus não é a justiça dos fariseus. O patrão da parábola não foi injusto ao dar o mesmo salário a todos os empregados, independentemente se um trabalhou mais que o outro, pois o patrão não se baseou no mérito de seus empregados, mas sim em sua bondade. Do mesmo modo Deus não é injusto ao admitir pecadores em seu Reino, pois Ele é bom.

                   Nós, enquanto comunidade cristã, não podemos fechar as portas para os nossos irmãos que andaram por outros caminhos e perceberam que estavam no erro, nós temos que abrir o coração e acolhê-los, pois através de nossa acolhida sentirão o amor de Deus. Que possamos sempre ter em mente as palavras de S. João da Cruz: “No entardecer da vida, seremos julgados sobre o amor”.

                Que S. Jacinto nos inspire a seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, demonstrando ao mundo a lógica de um Deus que é amor, um Deus que quer a salvação de todos os homens e mulheres.

     

    Fr. Alexandre Francisco de Marchi Silveira, OP

     

     

     

  • 20º DOMINGO DO TEMPO COMUM

     

    «Por isso, talvez, o Senhor virá ao fim com o sinal do fogo, com o objetivo de destruir todos os vícios no momento da ressurreição, encher os desejos da cada qual com sua presença e lançar luz sobre os méritos e sobre os mistérios».

     

    (Santo Ambrósio, Tratado sobre o Evangelho de São Lucas)

     

                   A Palavra de Deus hoje convida-nos a tomar consciência da radicalidade e da exigência da missão que Deus nos confia. Não há meios-termos: Deus convida-nos a um compromisso, corajoso e coerente, com a construção do “novo céu” e da “nova terra”. É essa a nossa missão profética. O seu fogo quer nos purificar. A sua paz quer nos colocar na lógica do seu Reino. Hoje também é o dia dos pais. A eles é entregue a árdua missão de participar do ser de Deus pela paternidade com coragem e perseverança em tempos de confusões da função paterna. O profeta Jeremias e o maior de todos profetas – Jesus Cristo, verdadeiro Deus e homem: são pessoas que incomodam; são modelos de pais que apontam para o essencial em tempos de inseguranças.

                    A primeira leitura (Jr 38,4-6.8-10) apresenta-nos a figura do profeta Jeremias. Ele recebe de Deus uma missão que lhe vai trazer o ódio dos chefes e a desconfiança do Povo de Jerusalém: anunciar o fim do reino de Judá. Jeremias vai cumprir a missão que Deus lhe confiou, doa a quem doer. Ele sabe que a missão profética não é um concurso de popularidade, mas um testemunhar, com verdade e coerência, os projetos de Deus. Na verdade, esta leitura hoje propõe-nos um grande ensinamento diante de injustiças que vivemos, sejam nas comunidades onde estamos inseridos sejam em estruturas humanas onde as pessoas compactuam com o mal: confiar em Deus e continuar firme na missão. O texto mostra-nos que o profeta foi jogado em um poço sem água; apenas com barro. Em muitos momentos da vida nos custa muito ter que escutar a Deus nos vários “poços” de tormentos que a vida nos apresenta, principalmente em meio de pessoas e situações obcecadas pelo mal ou pela injustiça. O profeta dá-nos uma grande mensagem de perseverança e fidelidade em meio às incompreensões. Quantos dos nossos pais hoje poderiam ver no profeta Jeremias um referencial para suas vidas! Todos os que são escolhidos por Deus como testemunhas da sua Palavra sofrem perseguições, mas não podem se esquecer de algo: jamais são abandonados por Deus.

                O Evangelho (Lc 12,49-53) reflete sobre a missão de Jesus e as suas implicações. Define a missão de Jesus como um “lançar fogo à terra”, a fim de que desapareçam o egoísmo, a escravidão, o pecado e nasça o mundo novo – o “Reino”. A proposta de Jesus trará, no entanto, divisão, pois é uma proposta exigente e radical, que provocará a oposição de muitos; mas Jesus aceita mesmo enfrentar a morte, para que se realize o plano do Pai e o mundo novo se torne uma realidade palpável. Muitas pessoas talvez buscam Deus e a Igreja, e, no fim se decepcionam. Talvez buscam paz, contudo encontram conflitos e “fofocas”; buscam acolhida, e, muita vezes se defrontam com invejas entre os “bons” católicos praticantes. O evangelho hoje é uma espécie de colírio para os olhos “desiludidos” pelas trevas interiores. Se não tivermos fé, confiança e perseverança, tendo diante de nós Cristo e a sua cruz, desanimamos dos trabalhos na comunidade. Há um grande alerta para todos nós, quando pensamos que a Igreja seja um lugar de fuga ou acomodamento. É um lugar de fuga? Não! Jamais! Para Jesus, o Reino de Deus se enraiza em meio às contradições e complicações da vida humana. Dentro e fora da Igreja teremos incompreensões e perseguições. O fato de Jesus usar a imagem do fogo – “eu vim para lançar fogo sobre a terra (...)” – parte deste elemento da natureza capaz de purificar. Ele veio para renovar, purificar, trazer novo ânimo aos corações adormecidos ou anestesiados. Todos nós, quando temos a força do ressuscitado em nossas vidas, deveríamos também levar o “fogo purificador” do amor em todos os lugares. Ele também diz que não veio a “paz” mas a divisão (cf. v. 51). Jesus se tornou um agitador ou populista anárquico? Certamente nenhuma das duas hipótedes! Ele veio trazer e traz ainda uma paz que é fruto da justiça e do amor. De fato, a sua presença é paradoxal na vida humana. Ele quer enfatizar que o seu Reino, inaugurado com a sua pessoa, coincide com um novo modo de ser, ou seja, o verdadeiro Kairós.  Sua presença e ação exige o rompimento com certas estruturas que escravizam. A renovação e purificação, vindas pelo “fogo” e a “divisão” é um convite à conversão; um convite à saída da inércia e do acomodamento. Podemos dizer que uma Igreja acomodada pode transparecer certa paz aparente, mas ela não é profética (como Jeremias), e não sendo profética não pode ser como assim desejou Jesus. Há muitas pessoas na Igreja que tentam criar estruturas e referenciais que traem o des-acomodamento que Jesus propõe. As contendas, divisões, incompreensões numa comunidade não são essenciais em si, embora existam e podem nos deixar perplexos. Mas sejamos pacientes: elas devem gerar a busca pelo diálogo e o ajuste entre as pessoas. Devem provocar o encontro sincero e honesto pelo mesmo Espírito que inspira a todos igualmente nos ministérios. Mais que cultivar conflitos ou divisões, Jesus quer provocar uma fé adulta e madura que encontra na Cruz um sentido purificador. Devemos, diante de Jesus e da nossa consciência, decidirmos sobre a nossa vida e o nosso proceder. Esta tarefa não é fácil. Exige muita purificação (fogo) e segurança interior (paz) para não nos deixarmos seduzir pelo contra projeto do Reino. Há um mundo novo em gestação... há uma nova humanidade em busca de purificação, paz e sinais dos tempos.

                        A segunda leitura (Hb 12,1-4) convida o cristão a correr de forma decidida ao encontro da vida plena – como os atletas que não olham com esforços para chegar à meta e alcançar a vitória: Cristo – que nunca cedeu ao mais fácil ou ao mais agradável, mas enfrentou a morte para realizar o projeto do Pai – deve ser o modelo que o cristão tem à frente e que orienta a sua caminhada. Esta leitura é um convite a buscar o essencial: ter os olhos fixos em Jesus. Em geral, para um cristão, a vida se torna problemática, não porque os problemas são muito complicados, mas porque estes olham “fixadamente” não mais em direção a Jesus, mas para as coisas ou situações que ocupam o seu lugar. As contradições e dificuldades sempre existirão em graus e nuances diferenciadas. Contudo, o alento do cristão está no fato de pensar como Ele e viver como Ele. Os cristãos desta comunidade tinha sido espoliados e agredidos. O autor os encoraja. Ele nos encoraja hoje e sempre. Encoraja hoje a todos os pais que são chamados a serem “atletas” de uma educação firme e dócil. A família hoje não vive um momento de equilíbrio. É questionada na sua condição estrutural. Mas não devemos ter medo ou receio dos problemas. Como em todas as épocas, o Espírito do ressuscitado está em nosso meio, encorajando-nos a ter os olhos fixos no essencial.

     

    Fr. André B., OP

Notícias

  • Depois que a Éditions du Cerf reeditou dois dos seus livros (Eu vos chamo de amigos e Que a vossa alegria seja perfeita), o grande teólogo dominicano concedeu uma entrevista exclusiva ao Le Point. A entrevista é de Jérôme Cordelier e publicada no sítio francês Le Point, 19-04-2014. A tradução é de André Langer.

     

    http://www.ihu.unisinos.br/noticias/530741-nossa-epoca-sofre-do-mal-da-banalidade-entrevista-com-timothy-radcliffe

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