| Frei
Tito - Memorial de Frei Tito |
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UM HOMEM
TORTURADO: TITO DE ALENCAR

Eu
me autorizo falar psicanaliticamente da tortura por ter, como jovem
psiquiatra, acolhido Tito de Alencar no hospital. Este intelectual,
duplamente comprometido, religiosamente como dominicano, e politicamente
como líder de um dos movimentos de liberação
nacional que emergiram no Brasil depois do golpe de l964, foi preso
em 1969, em decorrência do assassinato do líder comunista
Marighela. Este assassinato foi a obra secreta do delegado Fleury
e dos esquadrões da morte. Na mente dos autores dele, cumpria
um duplo objetivo: liquidar Marighela e comprometer definitivamente
os religiosos engajados na luta revolucionária. Durante um
encarceramento de vários meses, Tito de Alencar foi submetido
a interrogatórios policiais e a torturas, por este mesmo
comissário Fleury. Daquela experiência da tortura que
definitivamente o deixou alquebrado, nós possuímos
um duplo testemunho: por um lado, são escritas que ele teve
a coragem de escrever na prisão (isso foi publicado em uma
compilação que foi dedicada a ele: " Então
as pedras gritarão ", e por outro lado, a restituição
desta experiência, como ele mesmo a transmitiu por meio de
um estado melancólico e delirante apresentado nos meses que
precederam sua morte.
Talvez porque, pela sua origem, pertencia à classe média,
tradicionalmente favorável ao regime político da situação,
mas também porque ele era religioso, parece que Fleury e
os torturadores dele obstinaram-se sobre o Tito de Alencar com uma
crueldade particular. Para escapar disto, ele teve recurso, na própria
prisão, a uma tentativa de suicídio, seccionando a
artéria do braço, e só escapou graças
à vigilância dos executores dele, receiosos em ter
que assumir a responsabilidade por este gesto. Tito evoca nas escritas
dele a frase que ele ouviu no seu meio-coma: 'Doutor, aquele é
absolutamente necessário salvá-lo, caso contrário
nós estamos perdidos.' [1] É inclusive graças
a este suicídio que a Igreja, em primeiro lugar e depois
outras instâncias da sociedade, foram alertadas a respeito
da prática da tortura nas prisões brasileiras.
Porque, como nós o veremos com mais detalhes, uma das condições
da prática da tortura é a de poder se beneficiar com
uma clandestinidade de fato.
Graças às circunstâncias excepcionais - o rapto
do embaixador de Suíça pelos revolucionários
brasileiros seguido pela liberação dele em troca de
um certo número de presos políticos - Tito de Alencar
pôde deixar a prisão em 1970, e foi expulso imediatamente.
Depois de uma breve permanência no Chile e na Itália,
ele foi acolhido na França.
Mas esta real liberdade só fez dramatizar a alienação
interior para a qual a experiência da tortura o tinha definitivamente
empurrado. De fato, desde as primeiras vezes, Tito mal conseguia
iniciar, e logo os abandonava, estudos, psicoterapia e até
mesmo psicanálise. Durante a sua longa permanência
em Paris, de acordo com seus amigos, ele era um homem completamente
aboulique, retomando sem parar um questionamento político,
religioso, duvidando profundamente de si mesmo, e convencido de
ter traído a causa dominicana como também a causa
revolucionária. Ele passava horas escrevendo, como que para
tentar reconstruir uma verdade interior, e é certo que foi
neste exato ponto que a tortura teve pleno êxito contra ele.
Frente a este desespero, seus superiores religiosos tiveram a idéia
de confiá-lo a uma outra comunidade dominicana, particularmente
carinhosa, a de Éveux, neste convento bonito construído
por Le Corbusier, em meio às colinas do país Lyonense.
Depois de um período onde Tito se achava obviamente melhor,
explodiram, ruidosamente e dramaticamente, as demonstrações
delirantes que não iam deixá-lo jamais, até
seu suicídio alguns meses mais tarde. Começou com
as fugas inexplicadas, cada vez mais freqüentes, e mais longas.
Inexplicadas até que um dos Irmãos dele, mais próximo,
descobrisse a razão delas: O Fleury falava a Tito e lhe dava
ordens – para não entrar, não deitar, para não
comer... O Tito foi se redobrando cada vez mais em si mesmo, cada
vez mais mutique, cada vez mais triste. Na seqüência
de uma destas fugas, ele foi levado para o hospital.
Foi uma cena trágica aquela que presenciamos então:
um homem como que encurralado, entregando-se a nós como se
fôssemos seus executores. Quando foi para o quarto, ele logo
se jogou na parede, braços para cima, como que para ser executado
na hora. Depois quando foi para administrar-lhe um remédio
para alívio, tomou-o como se fosse o veneno que devia acabar
com ele. Cena dramática porque ali era reconstituída
completamente, literalmente, a situação exata da tortura,
situação que neste momento nós não tínhamos
meio de entender, mas que, pouco a pouco, graças à
cooperação com seus Irmãos Dominicanos, com
os amigos dele, nós conseguimos levar à luz do dia.
Adquirimos rapidamente a convicção de que não
estávamos na frente de uma patologia psiquiátrica
habitual, nem de um ponto de vista semiológico nem num plano
que eu chamarei ético. Os sintomas apresentados por este
paciente, embora pudessem ser os de uma melancolia habitual, tomavam
lugar em um mesmo contexto de exibição bastante particular.
Eu falei de «cena» porque o painel clínico incluía
uma dimensão muito intencionalmente teatral; apesar do mutismo
quase total deste homem, apesar da força de sua crença
delirante de que éramos algozes, pressentíamos também
que sua consciência não tinha realmente virado para
uma convicção delirante, e que o que o paciente nos
expunha era mais um testemunho do que uma patologia. A intensidade
do sofrimento psíquico - mais que da dor moral – ia
no mesmo sentido.
Eu percebo agora que a aposta que nós fizemos naquele momento
– a equipe de enfermagem e Irmãos Dominicanos –
a de considerar este estado menos como uma patologia do que como
um testemunho, ia no sentido da intenção de Tito de
Alencar expressar por este "delírio" (ou talvez
por esta exibição histérica, mas não
importa...) os tipos de crueldade que ele tinha sofrido durante
sua tortura, muito melhor e muito mais precisamente do que o que
ele poderia escrever a respeito. Tocamos aqui ao limite da linguagem
que só pode dar conta daquilo que não escapa à
consciência, enquanto o delírio dele transmitia tudo
o que pudera ser trocado inconscientemente entre a vítima
e seu carrasco. Mas também, esta aposta queria proteger o
Tito de uma decadência apontada pelo torturador. O projeto
do torturador era exatamente "tornar louca" a sua vítima,
mas em um pós-golpe distante, em um tempo onde a relação
de causa a efeito com a tortura não seria mais óbvia.
A loucura assim instalada denunciaria simplesmente uma constituição
doentia do paciente e também geradora, por que não?,
de seus equívocos na luta e no compromisso político.
Um diagnóstico psiquiátrico de loucura teria definitivamente
difamado Tito de Alencar.
Apesar de várias remissões onde os sintomas desapareceram,
onde seu relacionamento com os outros melhorava, nada mudou verdadeiramente
em Tito desta tendência em reviver, e fazer reviver, compulsivamente,
a situação da tortura, como que testemunhando com
isso a força e a qualidade particular – digamos logo
erótico – do vínculo que o tinha amarrado indelevelmente
e apesar dele mesmo a seus torturadores. Suas relações
com os Irmãos de sua comunidade, aparentemente simples e
calorosas de novo, arranhava-se com crises interpretativas onde
Tito os suspeitava de ser os cúmplices do Fleury. De uma
maneira permanente, porém subterrânea na maioria do
tempo, a sobrevivência nele da situação da tortura
seguia seu curso.
É provavelmente para escapar novamente da tortura que Tito
de Alencar cometeu suicídio, em um momento em que estava
aparentemente melhor e tinha aceitado a idéia de se inscrever
socialmente assumindo um trabalho na periferia de Lyon. Não
se pode evitar de ver neste suicídio exitoso a retomada do
seu gesto fracassado nas prisões de São Paulo, gesto
do qual tinha sido desapropriado por seus algozes, como da última
liberdade à qual o homem pode pretender. E sentimo-nos autorizados
a interpretar as circunstâncias do seu suicídio, já
que se enforcou ao topo de um álamo, em uma descarga pública:
assim o pássaro migratório se deixa pegar pelos fios
elétricos... Poetizamos os fatos, em reação
exatamente a este movimento de despoetização que a
tortura realiza no ser? Se a própria linguagem é impotente
em prestar conta dos acontecimentos, isto resulta na sua desqualificação
como meio de expressão poética; daí a busca
de meios substitutivos, como a patologia, tanto o delírio
quanto o suicídio.
E neste suicídio, e sua cena particular, não estaríamos
ouvindo seu infortúnio de exilado, sua erradicação,
seu país obviamente de onde tinha sido expulso mas também
a erradicação bem mais profunda que a tortura tinha
provocado em relação a ele mesmo, à sua identidade,
aos seus ideais...
O suicídio de Tito de Alencar desvela claramente a natureza
destrutiva da tortura. Entre os significados que podem ser apurados
deste suicídio – bem como da precedente tentativa -
há essa vontade de dramatizar que ele tinha morrido, em um
certo sentido, digamos espiritualmente, durante a prova da tortura,
que não passava mais, de lá para cá, de um
sobrevivente.
Certamente a tortura não inclui sempre um resultado tão
destruidor, e, em particular, companheiros de Tito, igualmente torturados,
não sofreram as mesmas conseqüências. O caso de
Tito nos leva a nos interrogar sobre o que foi que tornou tão
assassina essa experiência para ele. Se confrontarmos o que
tivemos oportunidade de observar do seu delírio e as vicissitudes
de sua sobrevivência, com os testemunhos escritos que ele
deixou, precisamos admitir ou que o efeito psicológico que
vem com qualquer tortura física foi particularmente agudo
no caso dele, ou que, ao lado das crueldades meramente físicas,
Tito sofreu uma forma particular de tortura psicológica.
Isso é tanto mais provável que, por conta de seu status
social de padre e intelectual, Tito de Alencar representava para
seus algozes, e em particular para o delegado Fleury, um símbolo.
Símbolo de uma nova aliança da fé e da revolução,
opondo-se à aliança tradicional da Igreja e do Estado,
e que era necessário desqualificá-la absolutamente
para evitar sua propagação. Esta aliança, pela
sua ambigüidade, pela sua novidade, representava uma déviance,
suscetível de encontrar uma saída positiva, e da qual
era necessário demonstrar a negatividade, absolutamente.
A ambigüidade da aliança será o exato lugar onde
o torturador agirá, e agirá psicologicamente, por
meio de um duplo movimento de desqualificação da dialética
que está em jogo aí, e de evidenciamento da incoerência
que nela está também presente.
No testemunho que Tito de Alencar escreveu no cárcere em
1970, acha-se uma descrição muito literal dos fatos
sofridos. Seu primeiro contato com a tortura é o «pau
de arara », tortura que consiste em ajoelhar o preso nu, enfiar
uma barra de ferro na dobra dos joelhos, prender por trás
seus pulsos com seus calcanhares, e em seguida suspendê-lo
de cabeça para baixo. «Assim suspendido, despido, eu
recebi descargas elétricas de corrente contínua nos
tendões dos pés e na cabeça. Os torturadores
eram seis. Eles me aplicaram o "telefone" (bater as duas
orelhas com a palma da mão ao mesmo tempo para fazer explodir
os tímpanos) e eles me gritavam injúrias.» [2]
Identifica-se aqui, por parte dos torturadores, a busca de um efeito
de estimulação (sommation) das diversas fontes de
excitação: físicas, elétricas, sonoras
e também verbais, e a nudez traz consigo uma excitação
muito diretamente sexual. Mas reencontraremos essa estimulação
de outro modo. De fato, os torturadores não vacilam acumular
crueldades nas distintas partes do corpo. «Eles lançaram
algumas descargas elétricas em minhas mãos, em meus
pés, em minhas orelhas e em minha cabeça. A cada descarga
todo meu corpo passava a tremer como se fosse despedaçar[3]»
Por meio desta estimulação, além da brutalidade,
busca-se provocar uma mutação psíquica do sujeito.
Mas se podemos, nós, decifrar esta situação
assim, Tito, ele, não podia discernir a estimulação
que estava em jogo, nem a intenção que a ela presidia.
O testemunho posterior do delírio é muito mais autêntico
que o testemunho escrito porque nos mostra que Tito podia ter consciência
somente de uma parte da situação; acontece desde o
começo da tortura uma dissociação muito clara
entre a consciência imediata dos fatos, e uma interiorização
mais inconsciente onde não importa mais a diferença
entre sevícias sofridas e sevícias desejadas. «Era
eu impossível saber que parte do corpo era mais doída.
Eu tinha a impressão de ser esmagado por toda parte. Minha
mente não era mais coordenada, eu só tinha o desejo
de perder os sentidos[4]”.
A estimulação visa de fato engajar, sem o conhecimento
da vítima, seu desejo, e solicitar assim mesmo uma cumplicidade.
Pois, pelo sofrimento, o corpo é solicitado eroticamente
até o ponto onde uma auto-excitação interna
é capaz de dar continuidade, de modo quase autônomo,
à excitação externa. Confusão e culpabilidade
virão como conseqüências de uma certa dissolução
de categorias do interior e do exterior: não é o torturador
que faz perder os sentidos, é ele mesmo que passa a sentir
o desejo disso. Reencontramos, claro, o desejo à obra, de
modo grotesco, na reconstrução delirante da tortura.
Um passo a mais na mutação psíquica secreta
da vítima é perceptível no seguinte evento
relatado por Tito: ele cai nas mãos de um novo torturador,
o capitão AIbernaz. «Quando eu venho na Operação-Bandeirante,
eu deixo o coração em casa. Eu tenho horror dos curas...
Você conhece Fulano e Beltrano? (menciona os nomes de dois
presos políticos torturados, com muita selvageria por ele),
você vai ter direito ao mesmo tratamento: descargas elétricas
o dia todo. Para cada um de seus NÃO, você receberá
uma descarga mais importante. Havia três militares na sala.
Um deles gritou: "Eu quero nomes de homens e de organizações
clandestinas ".
Quando eu respondi: "Eu não sei, eu recebi uma descarga
elétrica tão forte, daquelas diretamente plugadas
na tomada, que eu perdi o controle de minhas funções
fisiológicas [5].»
É difícil superarmos o pathos desta situação,
e o espanto onde é deixado o leitor. Medimos a decadência
onde é levado o verbo nesta experiência, tanto pela
nossa tendência em ficar sem voz perante este relato quanto
pelo fato de que o torturador parece não esperar por outra
resposta a não ser exatamente o NÃO. O desespero na
tortura passa pela decadência da linguagem. Há algo
realmente infame nesta estratégia que usa, com aparente objetivo
de fazer falar, de um constrangimento que organicamente castra a
pessoa de seus meios de expressão, a tal ponto que o leitor
é submetido à convicção, nesta passagem,
que a tortura não é usada como um método de
interrogatório policial, mas que ela tem um objetivo autônomo
que é o de uma compromissão.
De fato, as descargas elétricas visam precisamente aqui a
levar a vítima a se sujar. Ainda em sua narração,
Tito alude a alguns as várias pessoas presentes ao lado do
torturador: uma multidão de olhares que, portanto, concorrem,
através de voyeurismo, para erotizar o relaxamento dos esfíncteres
e os afectos múltiplos que o sujeito passa a sentir. Insistimos
no exibicionismo presente em seu delírio e pode-se ver neste
exibicionismo delirante a retomada de um afecto sofrido na tortura,
o qual Tito não tinha meios de controlar, ao escrever.
O horror continua para ele: «Ele (o torturador) entrou nos
ataques morais: Quais os padres que têm amantes? Por que a
Igreja não expulsou vocês todos? Quem são os
padres terroristas? Disse que a Igreja é corrupta, que pratica
malversações financeiras, que o Vaticano é
o proprietário das maiores empresas. A todas minhas respostas
negativas, eles me davam descargas, socos, pontapés, e golpes
de vara no tórax. Num determinado momento, o capitão
Albernaz ordenou que eu abrisse a boca para receber "a hóstia
sagrada ". Ele introduziu um fio elétrico. Eu permaneci
de boca inchada, sem poder falar adequadamente. Eles gritavam contra
a Igreja. Eles gritavam que os padres são uns homossexuais
porque eles não são casados... Eles só pararam
às quatorze horas» (nota-se que tinham começado
de manhã às oito horas)[6].
A densidade patética da narração vem da pressa
com que foi escrito, como em uma luta contra o esquecimento, contra
o recalque benfazejo a curto prazo, mas que o alienará posteriormente,
ao ter que rememorar pelo viés do delírio.
Tito, como foi falado, nunca mais conseguiu habitar sua identidade
de religioso, e uma parte grande de seus escritos expressará
a busca dolorosa de uma espiritualidade nova, impossível
porquanto a procurava exclusivamente na reconciliação
de ideais contraditórios: Freud e Marx, Marx e Cristo, etc.
Neste último fragmento da narração, percebe-se
melhor por que procedimento a tortura consegue a mutação
psicológica do sujeito. Consiste na destruição
de auto-representações idealizantes do eu. Mais justamente
aqui, o que especificamente é contestado é a representação
a mais espiritual, a mais especular também, a do padre. Destruição
seguida pela imposição de uma nova identidade, como
a negativa da anterior,: «Você é um falso padre»,
em contradição: “A Igreja é corrupta
», e na sensação de uma decadência: «Os
padres são uns homossexuais.»
Da maneira que o Tito consegue evocá-lo, o procedimento torturador
parece desenvolver-se como um drama do qual a cena paródica
da comunhão seria o ápice. Com uma malignidade estratégica
que só uma relação muito apaixonada pode inspirar,
a manipulação pelo torturador do simbolismo religioso
visa desacreditar, tornar em derrisão um setor da identidade
da vítima, aquele do qual pode-se dizer que ele é
o lugar de todas as sublimações e todas as transcendências.
Ele é desacreditado porque é reduzido a um gestual
quase pornográfica, neste contexto de excitação
corporal, depois de tantas horas de sevícias.
Imagina-se que foi neste momento preciso que Tito de Alencar perdeu
toda possibilidade de se reconhecer como o padre que ele era. A
razão pela qual deve ter aderido a esta paródia está
em relação com o ardil que consiste, não tanto
em denunciar ex-abrupto a religião, mas em fazer ressaltar
o embasamento pulsional, a partir do qual a sublimação
religiosa pôde desenvolver-se. De fato, o torturador só
faz virar de sua vertente solar, sublimatória, para uma vertente
sombria pulsional. A tortura se revela como uma operação
de sublimação.
Também é uma operação de despoetização.
Porque se prestamos atenção, neste fragmento de narração,
à importância das palavras que são expressadas
pelos carrascos, nota-se vários pontos. Como provavelmente
em outros momentos, o carrasco não deixa de insultar a vítima,
mas, notemo-lo, de um modo relativamente sincronizado com as crueldades
físicas. Como se cada interjeição fosse lançada
e fosse introduzida no sujeito após um trauma físico.
De fato, esta linguagem diz coisas das quais não é
possível evitar a falsidade, já que contém,
apesar de tudo, sua parte de verdade. E é sobre a ambigüidade
do verdadeiro e do falso que está jogando: sobre a palavra
homossexual, por exemplo, verdadeira de uma verdade que, latente,
concerne todo ser humano, verdadeira também de uma verdade
de fato, na situação do ser Tito que está sofrendo
passivamente uma paródia de felação em um contexto
de exibicionismo-voyeurismo. Na realidade, não somente a
linguagem se introduz no rasto das sevícias corporais, mas,
bem mais, ela as acompanha e vem lhes dar um sentido que por si
só não poderiam ter. A linguagem funciona aqui como
um veredicto, melhor, como uma interpretação selvagem
que vem estigmatizar de modo absolutamente irreversível a
ressonância emocional que as sevícias tentam provocar
no sujeito.
Pode-se dizer que com o insulto, o carrasco completa sua estratégia
e encerra a experiência. A linguagem assumiria assim um papel
análogo aos olhares das pessoas que assistem à cena.
Pois como Tito poderá, para sempre, repensar este momento
da experiência onde, despido, humilhado, constrangido, está
apanhando, sendo passivamente estuprado, sem que seja através
do veredicto das vozes e dos olhares: «Você é
um homossexual», «Você se entrega e se expõe
como uma mulher»?
Esta palavra que diz ao mesmo tempo o verdadeiro e o falso, que
se impõe do exterior e acha sua ressonância dentro,
não poderá mais ser objeto de uma elaboração
espontânea. Caída de seu estatuto semântico,
sofreu uma despoetização que a reduziu a um mero corpo
estranho, uma coisa que habitará duravelmente o sujeito e
que reencontraremos à obra, novamente, na hora das fases
menos subterrâneas do seu delírio, quando a voz do
torturador lhe ditará cada ato de sua vida.
Não há duvida que Tito de Alencar morreu no decorrer
de suas torturas. Mesmo incorrendo no risco do pathos, estou inclinado
a afirmar essa proposição na medida em que o que Tito
era, o religioso, o lutador, mas também o homem inscrito
numa história privada, doméstica, o filho, o irmão,
não o era mais. Tito se tornou alguém outro, aquele
que seu torturador teria querido que fosse. É neste sentido
que pode-se dizer que era um sobrevivente do qual era talvez impossível,
a nós que não havíamos passado por essa provas,
entendermos o que dele sobrevivia.
Tudo aconteceu como se a tortura tivesse substituído um homem
novo ao homem velho que ele era, o que só faz retomar o espírito
da tortura onde o torturador focaliza seu olhar num só ângulo,
o ser enquanto vítima, menosprezando absolutamente a realidade
existencial do sujeito. Nos chamou muito a atenção
ver que, quando uma de suas irmãs fez uma longa e cara viagem
do Brasil para a França para ajudá-lo, mal a reconheceu,
aceitou nenhuma familiaridade com ela, ficando impermeável
a todas as tentativas para fazer reviver seu passado.
Ele era o novo personagem criado por Fleury, e isto é exatamente
aquilo que a tortura visava. Pois anota-se um estreito parentesco
entre a maneira com que o carrasco manipula as sevícias físicas
e o modo com que manipula o insulto verbal. Nos dois casos, trata-se
menos de ferir o exterior do que provocar um movimento interno de
autodestruição e um movimento de autocrítica
que devem continuar agindo por conta própria. É o
que Tito de Alencar demonstrou em seu delírio quando impôs
a si mesmo todas as privações que sabemos, mas também
nesta atividade incessantemente repetida de auto-acusação.
Seu caso poderia ser considerado como uma tortura exitosa, ou seja
é possível que o ideal do torturador esteja em por
a caminho o que, na pessoa humana, está disponível
para uma auto-tortura (como conhecemos com freqüência
na patologia): auto-desvalorização, autocrítica,
autopunição. É talvez desta agudez psicológica
que se vangloriou o Albernaz quando Tito lhe ouviu dizer: "Nós
sabemos fazer coisas sem deixar rastros. Se sobreviver, nunca esquecerá
do preço de sua audácia"[7].
Em um momento bem preciso, Tito teve o sentimento de ter traído,
dando nomes. Ele se acusará precisamente por muito tempo,
de modo melancólico, embora todos os testemunhos contrariam
essa convicção: ele não teria entregado nenhum
nome sob a tortura. Vê-se aí, nesta auto-acusação,
um meio cômodo, imediato, para racionalizar sua culpabilidade,
mas também, sobre esta culpa clássica de torturado,
vem deslocando um sentimento mais escuro e expansivo da traição.
Nas escritas, este sentimento de traição assume a
forma de uma preocupação nascente para com o destino
dos seus Irmãos Dominicanos. "Em minha cela eu não
conseguia dormir. A dor aumentava cada vez mais. Eu tinha a impressão
que minha cabeça era três vezes mais grossa que meu
corpo. Era preciso acabar com isso uma vez por todas. Eu sentia
que não poderia agüentar tamanho sofrimento por muito
tempo. Eu estava angustiado à idéia que meus Irmãos
Dominicanos pudessem sofrer a mesma coisa".
O desejo de morrer permanece indissociável deste sentimento
de traição que representa a essência mesma da
auto-tortura , tanto quanto é a meta suprema da tortura,
pois é o grupo ao qual pertence a vítima que o algoz
tenta alcançar por meio dela. Ora ao mesmo momento, uma campanha
de imprensa é orquestrada publicamente contra o grupo dos
Dominicanos. O jornal O Globo publicou o seguinte: «Eles (os
Dominicanos) traíram a fé ao aderir ao comunismo,
e traíram o comunismo ao entregar Marighela. São os
novos Judas [8]» É impressionante como as mesmas acusações
difamatórias, as mesmas calúnias, circulam aqui, no
século, e ali, no espaço fechado, clandestino, inter-individual,
da tortura. Sentimo-nos autorizados a considerar que é a
mesma guerra que um certo grupo ideológico realiza contra
um outro, aqui e ali. Daí a idéia de que a tortura
poderia ser entendida como um tipo de microcosmo da guerra mais
geral, oficial, uma guerra de «laboratório»,
onde os obstáculos, os fracassos que o poder enfrenta na
realidade seriam como magicamente eliminados. Um microcosmo onde
o poder se dá a ilusão de que a realidade é
complacente com seu desejo: a tortura seria um campo de utopia.
Ao esmagar Tito de Alencar fisicamente e espiritualmente, o torturador,
e o grupo do qual ele é o representante, visavam talvez nada
mais que reforçar-se na convicção de que eles
poderiam acabar, sem dificuldade, com uma oposição
de idéias, que ameaçava sua própria convicção.
A busca desta ilusão de vitória responde muito melhor
pela crueldade das sevícias do que uma suposta busca de informações,
já que, como se viu, estas sevícias quase sempre colocavam
o Tito na impossibilidade de falar.
Tito, pessoa bem real, no entanto é torturado enquanto efígie
do grupo dominicano do qual ele é o símbolo. Há
na tortura um fundo de exorcismo que fica preso ao não-dito,
ao não-sabido, de um lado e do outro, mas que traz sua própria
confusão ao mistério da experiência. Freud,
em Totem e Tabu, explica: "Um dos processos mágicos
do qual se usa mais comumente para prejudicar um inimigo, consiste
em fabricar sua efígie com materiais quaisquer. Poderá
ainda se demonstrar que tal ou tal objeto representa sua imagem.
Tudo o que se inflige a esta efígie atinge o modelo odiado.
É suficiente ferir qualquer parte daquela, para que a parte
correspondente do corpo deste fique doente”[9]. O material
qualquer está aqui sendo Tito de Alencar, e o objeto que
representa a imagem, é seu corpo.
Fiquemos com esta hipótese da tortura como prática
exorcista, enquanto nos permite acompanhar a decadência da
palavra e da linguagem tal qual acontece na tortura, até
conduzir a esta forma semiótica particular que é a
confissão. É de fato numa progressão experta
que Tito de Alencar será despojado da sua palavra de homem,
desde que a clandestinidade e a ilegalidade da tortura tiram toda
referência ética. Despojado em seguida de sua palavra
de homem, na medida em que a dominação sexual almejada
pelo carrasco conduz a vítima a identificar-se a um corpo
erógeno que só fala de excitação e compulsão
à repetição. E enfim, com esta fase que a imagem
de efígie ajuda a figurar, entendemos que a palavra chamada
pelo torturador é não a palavra de Tito de Alencar,
sobre Tito de Alencar, mas a palavra do representante de um certo
grupo sobre o grupo em questão. É portanto uma palavra
que, longe de ser ao serviço de uma verdade qualquer, não
tem outra razão de ser senão tentar responder a uma
expectativa bem precisa do torturador. Esta expectativa seria evidentemente
a entrega de nomes, a prova de uma compromissão, de um erro,
de uma traição, tanto faz. Porque, qualquer coisa
que a vítima diz ou não diz,, esta será uma
palavra que o executor ouvirá do jeito que ele esperava:
eis a confissão.
Tudo fala em favor do torturador, como tudo concorre para provar
à vítima que ela falou, porque a confissão
nunca corresponde a uma declaração qualquer, mas a
uma certa forma de decadência da linguagem onde o sinal verbal
só se interpreta através do desejo daquele que o está
escutando.
A ausência de terceiro, o livre desenvolvimento da onipotência
do desejo do carrasco, caracterizam suficientemente o caráter
furioso, psicótico, desta situação de tortura,
que a decadência do verbo vem cristalizar.
Já há um século, um autor como Jules Michelet
tinha percebido a dimensão delirante disto: «Uma bruxa
confessa ter puxado ultimamente do cemitério o corpo de uma
criança morta, para usar este corpo em suas composições
mágicas. Seu marido diz: " Vá para o cemitério.
A criança está ali". O corpo é exumado,
encontrado exatamente no seu lençol. Mas o juiz decide, contra
o testemunho de seus olhos, que é uma "aparência",
uma ilusão do Diabo. Ele prefere a confissão da mulher
ao fato em si. A mulher é queimada[10].»
Esta decadência da palavra, Tito a denunciará no longo
mutismo que pudemos observar, bem como no automatismo mental, onde
uma voz que não era mais a sua falava dentro dele.
A prática do torturador é louca, e, frente a esta
loucura passional, a denúncia e a luta política têm
que se fazer, no mesmo grau, passionais e impiedosas. Mas ela é
também louca no sentido psiquiátrico do termo. Sem
que isso em nada contamina a luta política, devemos clarear
isto porque esta loucura situacional exerce por si só um
efeito psíquico destrutivo sobre a vítima; mas existe
também um interesse antropológico em entender este
fato realmente misterioso de que homens civilizados possam endossar
a responsabilidade de tal prática.
Pierre Vidal-Naquet[11], a propósito de torturas praticadas
na Argélia antes da independência, nos convence da
idéia de que a tortura só foi possível porque
políticos deixaram seriamente de cumprir com sua função
de controle das instituições e autorizaram um vazio
legal que só permitiu a instalação de práticas
torturadoras. Abandonado pelo jurista, dispensado, não sem
complacência, pela lei, o soldado se torna torturador e, se
assim pode-se dizer, ele se torna também louco, autorizando-se
de uma conduta exorcista e mágica que lhe serve no lugar
de pensamento.
Realmente só uma loucura, ou digamos um enlouquecimento,
permite entender a crueldade extraordinária demonstrada nestas
situações, a implacabilidade sádica que amarra
literalmente o carrasco à sua vítima e do qual a narração
de Tito de Alencar dá uma descrição de um realismo
comovente e uma grande agudez psicológica. De fato, é
de uma certa face do torturador, com sua estarrecedora inumanidade,
que, constantemente, este texto nos fala.
Imagina-se a revelação que constitui para a vítima
o encontro com este rosto do homem que desvela brutalmente, sardonicamente,
o torturador,:
Tito terá que se debater com essa imagem, ao mesmo tempo
para nela se reconhecer a si mesmo enquanto homem, e para dela se
livrar numa contra-identificação às vezes próxima
ao angelismo.
Aludimos, na história de Tito de Alencar, ao exibicionismo
um pouco histérico que demonstrava. Em sua indiferença
para com os outros, não estava ausente uma certa arrogância,
até mesmo a convicção secreta de ser um herói,
por ter passado por uma prova conhecida de nenhum outro, de ser
de certo modo um iniciado. Ao lado do que tirava para o sentimento
de decadência, uma patologia do «Eu grandioso»
presidia ao seu isolamento. A mesma talvez tinha achado sua justificação
na estranheza da experiência que, na confusão onde
ele se encontrava, ele elaborou nos termos de uma iniciação
sacrificatória da qual teria sido o único depositário,
igual ao Cristo ao qual lhe ocorreu repetidamente se comparar.
Por nossa vez, fomos fascinados pela experiência que viveu,
porquanto nela nos tocamos com este encontro inédito do homem,
em sua crueldade virtual, da qual a civilização nos
protege e nos separa. Eu vejo, pessoalmente, na multidão
de escritos que esta vida suscitou, uma vontade de transmitir -
não sem a idéia de uma possível redenção
- esta revelação, em um movimento quase angélico.
Mas estes atos de palavra têm no entanto uma função
autônoma: livrar a palavra de Tito da subversão que
a tortura lhe teria infligido.
É sempre por ocasião de causas religiosas, espirituais,
ideológicas, que a tortura se desenvolveu. Não podemos
desconhecer que neste contexto de idealidade - e de predisposição
mágica que o próprio ideal proporciona - a tortura
é tanto mais tentadora quanto lhe é atribuída
uma eficácia que não tem a ver com a objetividade,
mas com o poder de anulação que ela sabe implementar.
Os processos de feitiçaria, a Inquisição, as
dragonadas, os recentes genocídios que intentavam destruir
como representante do mal o que era da ordem da diferença,
todos convidaram a tortura para este fim.
Jean-Claude Rolland
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[1] Então as pedras gritarão, pág. 59, Ed.
Cana, 1980.
[2] Então as pedras gritarão, op.cit., pág.
52.
[3] ibid., pág. 52.
[4] ibid., pág. 54
[5] Ibid., pág. 55
[6] Ibid., pp. 55-56
[7] ibid., pág. 57
[8] ibid., pág. 12
[9] Totem et Tabou,
Petite Bibliothèque Payot, pág.
94
[10] J. Michelet,
La Sorcière, Garnier-Flammanon,
1966, pág. 162
[11] P. Vidal-Naquet,
La Torture dans la République,
Maspero, 1972, pp. 101 a 114.